RBM 23/2 (Sumário)

Repercussões do longo século XVIII




     
PDF Edição Completa
     

O volume tem como eixo temático as “Repercussões do longo século XVIII” e apresenta contribuições de interesse geral e específico. O artigo de abertura do autor convidado, José Maria Pedrosa Cardoso (Universidade de Coimbra), bem como o artigo de Mariana Portas de Freitas (Fundação Calouste Gulbenkian), são de extremo interesse para os estudos da música luso-americana. Os artigos de Diósnio Machado Neto (USP), Aldo Luiz Leoni (Unicamp) e Régis Duprat (USP e Academia Brasileira de Música) constituem reflexões críticas sobre a historiografia musical brasileira e seus paradigmas na trajetória da musicologia no Brasil. O artigo de Michel Nicolau (Unicamp e Universidade de Humboldt, Berlim) aborda problema concernente a toda a área da música enquanto investigação, construção histórico-antropológica e representação identitária. Nessa esteira seguem os artigos de Silvio Merhy (UniRio) e Edilson Vicente de Lima (UCS), abordando a música popular no Brasil. Aprofundamentos históricos sobre documentação até então não abordada são oferecidos pelos artigos de Claudia Polastre (SMCSP) e Marshal Gaioso Pinto (IFG e Universidade de Kentucky), este último tratando ainda da reapropriação de repertório.

A homenagem de Régis Duprat a Francisco Curt Lange é seguida das resenhas de Marcelo Campos Hazan (Universidade de Columbia) e Maria Alice Volpe (UFRJ) sobre livros publicados recentemente e, ainda, da resenha de Aloysio Fagerlande (UFRJ) sobre CD recém-lançado. A RBM presta a sua homenagem ao musicólogo Régis Duprat pelo seu aniversário de 80 anos com a entrevista realizada por Ilza Nogueira (UFPB e Academia Brasileira de Música), conhecedora profunda dos embates daquela geração.

André Cardoso (UFRJ e Academia Brasileira de Música) apresenta a partitura do compositor português, mestre da Patriarcal de Lisboa, José Joaquim dos Santos, localizada no acervo desta instituição brasileira, concluindo o percurso deste volume dedicado ao século XVIII e suas repercussões, de especial interesse para os estudos da música no Brasil e suas relações com Portugal.


EDITORIAL

PDF Texto completo

ARTIGOS

Música da Paixão: a tipologia portuguesa 

José Maria Pedrosa Cardoso 

Resumo

Conhecendo-se em Portugal muitos documentos históricos de música polifónica da Paixão, impôs-se o estabelecimento de uma tipologia capaz de orientar metodologicamente os investigadores. De uma forma próxima ao estabelecido por especialistas estrangeiros, mas de acordo com a tradição portuguesa, verificou-se que aqueles documentos musicais se podem classificar por Texto, Versos ou Bradados da Paixão, conforme a polifonia se verifique apenas no discurso narrativo, em algumas frases da narrativa evangélica (geralmente “ditos” de Cristo, mas também versos narrativos) e nas frases dos personagens intervenientes, excepto o Cristo, sejam colectivas (turbas), sejam colectivas e singulares (bradados integrais). Todos esses tipos de canto litúrgico da Paixão se praticaram em Portugal e, supostamente, no Brasil, nos séculos XVI e XVII, explicando-se a sua quantidade e qualidade, por vezes na obra dos maiores polifonistas, como António Carreira, João Lourenço Rebelo, Francisco Martins etc, pelo gosto estético e pela prática de uma espiritualidade cristã historicamente identificada.

Palavras-chave

Canto da Paixão – música litúrgica – polifonia sacra – música portuguesa.

PDF Texto completo


Entre o hexacorde de Guido e o solfejo “francês”: a Escola de Canto de Orgaõ de Caetano de Melo de Jesus (1759) – Primeira recepção da teoria do heptacorde num tratado teóricomusical em língua portuguesa 

Mariana Portas de Freitas 

Resumo

A Escola de Canto de Orgaõ de Caetano de Melo de Jesus (1759-1760) é um tratado de envergadura sem paralelo na teoria musical portuguesa e brasileira. Destacando-se pela exposição sistemática e visão “histórica”, introduz, pela primeira vez na teoria musical em língua portuguesa, a inovação do heptacorde, até então ignorada pelos teóricos portugueses. Reconhecendo embora as vantagens práticas do heptacorde, o Padre Caetano mantém, contudo, a sua fidelidade à tradição hexacordal, alicerçada no sistema filosófico e simbólico boeciano, em que a música era parte de um todo inteligível, harmonioso, regido por relações e proporções numéricas.

Palavras-chave

Caetano de Melo de Jesus – teoria musical luso-brasileira – heptacorde – solmização francesa.

PDF Texto completo


Curt Lange e Régis Duprat: os modelos críticos sobre a música no período colonial brasileiro 

Diósnio Machado Neto 

Resumo

Desde a década de 1980, a musicologia brasileira vem incorporando aspectos da Teoria Crítica, desenvolvendo gradativamente uma disposição de compreender as estruturas discursivas sobre o passado da música no Brasil. A perspectiva é desconstruir a historiografia por suas matrizes bibliográficas, conceituais e ideológicas. O presente artigo se propõe a observar os modelos interpretativos da historiografia sobre o período colonial, articulando dois autores que possuem forte impacto na constituição do saber sobre esta época: Francisco Curt Lange e Régis Duprat. Nessa senda, trata-se de averiguar a visão de cada autor sobre a estrutura sociopolítica que baseia suas teses sobre o exercício da atividade musical. Diante do quadro interpretativo, o texto busca identificar os conceitos ideológicos e suas referências teóricas, concluindo, por fim, a posição de cada autor face às suas escolhas: Curt Lange como representante último na historiografia musical brasileira do determinismo bio-sociológico e Duprat vinculado à observação do sistema administrativo como ordenador das vivências na colônia, superando o determinismo bio-sociológico em favor da história comparada. O processo da determinação bio-sociológica é superado em favor dos fenômenos sociais em interrelação de sentido de tempo-espaço em sintonia com as estruturas de longa duração. Constitui-se, então, um marco de ruptura na historiografia musical brasileira.

Palavras-chave

Musicologia – historiografia musical brasileira – período colonial – Francisco Curt Lange – Régis Duprat.

PDF Texto completo


Historiografia musical e hibridação racial 

Aldo Luiz Leoni 

Resumo

Na historiografia sobre o que teria sido a música na América Portuguesa, grande parte da bibliografia foi permeada com o uso da cor da pele dos músicos como fundamentação de um “mulatismo musical”. Essa tese, cristalizada por Francisco Curt Lange em meados do século XX, consistia em considerar a fusão racial como ponto positivo no desenvolvimento social e cultural do povo e marca de uma identidade nacional; sobretudo se mirasse modelos europeizados. Essa forma de entender a participação mestiça na cultura tem raízes no pensamento nacionalista anterior ao Romantismo do século XIX. Vários trabalhos sobre música na América portuguesa vêm ressaltando a condição “mulata” dos músicos desde os primeiros textos de Manuel de Araújo Porto Alegre (1836). A permanência de muitos pontos desse modelo interpretativo ainda prospera em trabalhos acadêmicos ligados à temática da atividade artística na Colônia. Isso nos leva a indagar quais as origens desse mito e discutir se à luz dos avanços na interpretação histórica da cultura esse paradigma ainda satisfaz.

Palavras-chave

Historiografia musical – aculturação – hibridação racial – mulatismo musical – nacionalismo.

PDF Texto completo


A Casa da Ópera de São Paulo no governo de D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão 

Claudia Polastre 

Resumo

O trabalho investiga a atividade musical da cidade de São Paulo no período de 1765 a 1822 e verifica como a circulação da música entre as esferas profana e sagrada e o consequente processo de laicização dos espaços contribuiram para a ampliação das práticas de sociabilidade da época. Com este estudo, evidenciam-se as atividades da Casa da Ópera no governo de D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão e como elas propiciaram à cidade de São Paulo uma integração cultural às principais cidades do Brasil colonial.

Palavras-chave

Música – São Paulo colonial – ópera – festividades – sacro-profano.

PDF Texto completo


The conditions of global discourse of diversity: Music Encyclopedias, Dictionaries and Ethnomusicology 

Michel Nicolau Netto 

Resumo

O discurso da diversidade adquiriu, na contemporaneidade, valor positivo e força suficiente para organizar algumas das enunciações globais, até mesmo aquelas que se propõem universais. A Etnomusicologia incorporou esse discurso da diversidade para propor o estudo das músicas do mundo, sem tomá-las hierarquicamente, compreendendo-as de acordo com o sistema de pensamento de suas próprias culturas. Isto torna essa ciência típica de nosso tempo, cujo corpo de análise privilegiado pode colocar alguma luz sobre as condições de forjamento do discurso da diversidade, revelando as forças nele envolvidas e quem está na posição de pronunciá-lo. Este artigo busca compreender essas questões, tendo por base uma pesquisa em dicionários de música e enciclopédias dos últimos três séculos. A partir desta visão histórica, poderemos ter um quadro mais lúcido sobre o presente. Os objetos aqui escolhidos são valiosos, pois propõem reunir todo o conhecimento humano em suas áreas, complexificando a relação entre o universal e o particular. Como no estudo aqui presente sobre a Garland Encyclopedia of World Music, tal corpo pode revelar que o discurso da diversidade tem suas regras de diferenças e desigualdades.

Palavras-chave

Música – etnomusicologia – enciclopédia – dicionário – Garland – globalização – diversidade.

PDF Texto completo


As transcrições das canções populares em Viagem pelo Brasil de Spix e Martius 

Silvio Augusto Merhy 

Resumo

A obra monumental Viagem pelo Brasil de Spix e Martius contém um Anexo musical com transcrições de canções e cânticos em notação gráfica – “Canções Populares Brasileiras e Melodias Indígenas”. O fato de apresentar a produção musical anexada ao livro, cujo escopo é um relato científico, revela a concepção da arte e da ciência como expressão de cultura, pensando a arte não só como um conjunto de bens culturais e a ciência não só como um corpo de leis naturais. Analisar o anexo musical levou a discussões sobre as técnicas de transcrição e de registro de canções e sobre a visão letrada e europeia das práticas musicais em regiões brasileiras do século XIX.

Palavras-chave

Transcrição musical – canção popular – relato de viagem.

PDF Texto completo


O enigma do lundu 

Edilson Vicente de Lima 

Resumo

Este artigo tem como objetivo discutir o lundu, gênero musical elaborado após a segunda metade do século XVIII a partir de elementos coreográficos e musicais advindos das diversas camadas sociais no mundo luso-brasileiro. A discussão dos aspectos históricos e estilísticos fundamenta-se em fontes específicas da historiografia, iconografia e documentação musical – manuscritos, transcrições, edições. Este estudo propõe que a música do lundu consistiu numa apropriação – ou ‘tropicalização’ – do estilo clássico vigente na época, por meio dos elementos advindos da cultura negra que estavam na base do desenvolvimento do gênero musical em questão.

Palavras-chave

Lundu – modinha – história da música brasileira – estilo clássico.

PDF Texto completo


Reciclar os cantos do senhor: modernização e adaptação da música sacra no século XIX no Brasil 

Marshal Gaioso Pinto 

Resumo

O acervo do maestro Balthasar de Freitas é particular, proveniente da cidade de Jaraguá, em Goiás. O acervo possui mais de seiscentas obras, divididas em quatro séries: música sacra, música instrumental, música impressa e outros documentos. Os manuscritos datam entre 1836 e o final da década de 1930; grande número de cópias não tem data. Parte substancial de obras do acervo foi copiada mais de uma vez; é possível encontrar casos em que o estilo musical parece incompatível com a data do manuscrito. A análise desses manuscritos revela, nos casos em que uma peça foi copiada mais de uma vez, que essas cópias tendem a apresentar uma adaptação da instrumentação utilizada e, algumas vezes, uma modernização da notação musical. Assim, partes de violino eram reescritas para clarinetes e pistons, e partes de violoncelo ou contrabaixo para helicons e oficleides. Novas partes de trombone e saxhorne eram também criadas com intuito de substituírem as partes de contínuo. Além disso, são encontradas mudanças de clave, fórmulas de compasso e até mesmo armaduras de clave. Todas essas mudanças parecem refletir uma forte tendência da música no Brasil durante o século XIX: o desenvolvimento das bandas de música. É possível também notar outra influência nos manuscritos do acervo Balthasar de Freitas: o gradual declínio do nível de profissionalismo dos músicos que atuavam nas regiões de mineração. Músicos que não eram mais capazes de se dedicar completamente à atividade musical começaram a reciclar o antigo repertório para poder atender às demandas de seu tempo.

Palavras-chave

Goiás – banda – manuscritos musicais – acervos musicais.

PDF Texto completo


MEMÓRIA

O legado de Francisco Curt Lange (1903-1997) 

Régis Duprat 

PDF Texto completo


RESENHAS

Rogério Budasz, Teatro e música na América Portuguesa: convenções, repertório, raça, gênero e poder 

Marcelo Campos Hazan 

PDF Texto completo


André Cardoso, A Música na Capela Real e Imperial do Rio de Janeiro e A Música na Corte de D. João VI, 1808-1821

Maria Alice Volpe 

PDF Texto completo


Velhas e Novas Cirandas: Música para Fagote e Orquestra, Fábio Cury e Orquestra Amazonas Filarmônica 

Aloysio Fagerlande 

PDF Texto completo


ENTREVISTA

Régis Duprat em seus 80 anos 

Ilza Nogueira 

PDF Texto completo


ARQUIVO DE MÚSICA BRASILEIRA

Introdução: José Joaquim dos Santos (1747–1801) e o Hino para as Laudes do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo 

André Cardoso 

PDF Texto completo


Hymnus ad Laudes in Nativitate Domini Nostri Jesu Christi 

José Joaquim dos Santos (edição de André Cardoso)

PDF Texto completo