RBM 25/2 (Sumário)

Religiosidade e secularização




     
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Este volume da Revista Brasileira de Música, sob o eixo temático “Religiosidade e secularização”, trata da produção e recepção de gêneros musicais em contextos litúrgicos e seculares, a permanente resignificação da função social da música, desde as tradições ibéricas e luso-brasileiras no período colonial até o redirecionamento para os modelos cosmopolitas europeus, especialmente no período de transição da Monarquia à República no Brasil. Incita o olhar para a relação de reciprocidade entre música religiosa comprometida com os afetos seculares e a música secular comprometida com afetos religiosos.

O artigo de abertura, de Rui Cabral Lopes (Universidade Complutense de Madri, Espanha e Universidade Nova de Lisboa, Portugal) aborda as fontes mais importantes dos vilancicos que se cantaram na Capela Real portuguesa – localizados atualmente na Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Brasil – e trata da forte presença desse gênero na vida musical portuguesa no século XVII e inícios do século XVIII, considerando a interdependência entre sociedade, religião e poder real. Régis Duprat (Universidade de São Paulo) oferece uma reflexão historiográfica e uma crítica estilística da música luso-brasileira, entrecruzando problemas associados às especificidades da documentação musical, as hipóteses implícitas na “revolução notacional” e os pressupostos ontológicos que fundam os textos litúrgicos cujo caráter condiciona uma sintaxe musical vis-à-vis técnicas composicionais e apropriação de estilos musicais.

Os cinco artigos seguintes oferecem um panorama de diversas regiões do Brasil em períodos históricos subsequentes: Mary Angela Biason (Museu da Inconfidência de Ouro Preto) trata dos festejos pelo malogro do movimento conspiratório em três vilas de Minas Gerais – Vila Rica, São João del Rei e Sabará – no contexto do calendário oficial cívico e religioso do Brasil Colônia e do sistema de contratação dos serviços musicais. Marshal Gaioso Pinto (Instituto Federal de Goiás) aborda o papel da música das irmandades na sociedade de Goiás com base em documentos dos séculos XVIII e XIX. Paulo Augusto Soares (Procuradoria Geral do Estado de São Paulo) e Edilson Vicente de Lima (Universidade Federal de Ouro Preto) apresentam um estudo estilístico sobre compositor português e mestre-de-capela de São Paulo, André da Silva Gomes, discutindo os procedimentos composicionais nas soluções de expressividade musical dos textos litúrgicos, tirando partido dos diferentes estilos musicais vigentes em sua época, à luz do seu tratado de contraponto. Thiago Santos (Universidade Federal do Rio de Janeiro) discute a obra sacra de compositores brasileiros desde o século XIX e primeiras décadas do século XX, incluídos José Maurício Nunes Garcia, Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno e Francisco Braga nos diversos contextos instaurados por conjunturas institucionais, políticas, religiosas e por correntes estéticas e estilísticas, desde a influência do estilo profano da ópera na música religiosa até do pensamento reformista do motu proprio e o tratamento dos gêneros sacros como expressividade estética. Mário Alexandre Dantas Barbosa (Universidade Federal do Rio de Janeiro) oferece um panorama da música sacra em Belém do Pará no final do século XIX e da produção sacra do compositor paraense Otávio Meneleu Campos (1872-1927), que atuou em sua cidade natal no primeiro quartel do século XX.

Na seção Memória, a RBM presta homenagem ao crítico e historiador da música no Brasil, Eurico Nogueira França (1913-1992) pela pena de Vasco Mariz (Academia Brasileira de Música). A entrevista deste número, conduzida por Maria Alice Volpe, editora desta revista, está dedicada ao compositor Jorge Antunes, que completa 70 anos e reflete sobre sua trajetória musical e política.

No Arquivo de Música Brasileira, Roberto Macedo (Universidade Federal do Rio de Janeiro) apresenta um texto introdutório à edição musicológica do Madrigal para violino e orquestra, de Leopoldo Miguez preparada por André Cardoso (Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujos manuscritos hoje estão localizados no acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno.


EDITORIAL

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ARTIGOS


O repertório de vilancicos da Capela Real portuguesa (1640-1716): vetores sociolinguísticos, implicações musicais e representação simbólica do poder régio

Rui Cabral Lopes 

Resumo

Um dos principais testemunhos da vida musical portuguesa no século XVII e inícios do século XVIII é a coleção de folhetos de vilancicos impressos para os serviços religiosos da Capela Real Portuguesa a partir de 1640, ano da aclamação do Rei D. João IV como legítimo herdeiro da coroa portuguesa, no seguimento de seis décadas de monarquia dual corporizada na dinastia espanhola dos Habsburgo. Ao longo de setenta e seis anos, os vilancicos foram cantados durante os ofícios de Matinas do Natal, Epifania e Imaculada Conceição, no que assentou uma tradição quase ininterrupta que atravessou diversas gerações da monarquia portuguesa, até conhecer um final abrupto em 1716. A par com os aspetos de interdependência entre sociedade, religião e poder real, o presente artigo destaca a informação de natureza musical transmitida pelas fontes.

Palabras clave

Vilancico – Folhetos de villancicos – Música barroca portuguesa – Capela Real de Lisboa.

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A música sacra no Brasil colonial: uma reflexão ontológico-hermenêutica de Gerardo Alfonso

Régis Duprat 

Resumo

A riqueza semântico-ontológica dos textos litúrgicos sustenta a música sacra cujo discurso se estrutura na disponibilidade das técnicas e poéticas que evoluem historicamente. Os desafios da tradição dos estudos musicológicos e da pesquisa sobre as fontes primárias geraram no Brasil o acesso a um rico patrimônio musical que data do século XVIII. É um equívoco pressupor que as atividades musicais no Brasil Colonial se localizassem fora do circuito europeu da especialidade; ao contrário, integravam-se inclusive na geração de métodos e tratados teóricos a serviço das atividades criativas da profissão. Equívoco é também circunscrever geograficamente as atividades musicais apenas às regiões limítrofes do poder administrativo da colônia, tanto quanto a excelência das composições e a variedade e quantificação do repertório; como procedeu, mutatis mutandis, a musicologia europeia relativamente à própria produção musical ibérica do mesmo período.

Palavras-chave

Periodo Colonial – música sacra – estilo barroco – estilo clássico – harmonia sequencial – varietaspathos.

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Os festejos pelo fracasso da Inconfidência Mineira – 1972

Mary Angela Biason

Resumo

Os festejos de 1792 pelo fracasso da Inconfidência Mineira são discutidos no contexto do calendário oficial cívico e religioso do Brasil Colônia, nas diversas localidades: Rio de Janeiro, Tiradentes, Mariana, Vila Rica, São João del Rei, Sabará e Serro. A contratação dos serviços musicais é analisada dentro do sistema de arrematação, característico da administração pública no período colonial. A análise dos relatos sobre a execução do Te Deum do Malogro em três vilas de Minas Gerais – Vila Rica, São João del Rei e Sabará – revelou as práticas musicais correntes na época do evento, bem como os músicos atuantes. O levantamento da documentação histórica e musical visou ainda colher maiores subsídios para a identificação dos Te Deum possivelmente executados e suas respectivas autorias.

Palavras-chave

Período Colonial – música e história – festividades – administração pública – Minas Gerais – movimentos de independência.

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A música nas irmandades de Goiás

Marshal Gaioso Pinto 

Resumo

Irmandades desempenharam um papel fundamental no processo de fundação de Goiás. Enquanto na Europa e em outras regiões do Brasil o papel da música nessas associações vem sendo criteriosamente estudado, em Goiás esse assunto é ainda inexplorado. Entretanto, não há dúvida de que houve também em Goiás um movimento musical significativo por parte dessas instituições. A julgarmos pelo volume de informações inéditas relacionadas à música encontrado em documentos dos séculos XVIII e XIX provenientes de irmandades de Goiás, faz-se necessária uma reavaliação do papel da música na sociedade goiana nos períodos colonial e imperial. Por outro lado, o estudo das atividades musicais promovidas pelas irmandades contribui para o melhor entendimento dessas instituições que tiveram um papel tão importante na formação do que hoje são os Estados do Tocantins e de Goiás.

Palavras-chave

Período Colonial –música sacra – história de Goiás – religião – irmandades – confrarias.

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Ofertórios: um microcosmo estilístico de André da Silva Gomes (1752-1844)

Paulo Augusto Soares e Edilson Vicente de Lima

Resumo

Os ofertórios de André da Silva Gomes apresentam muitas características comuns concernentes aos parâmetros composicionais que comportam diferentes encaminhamentos no trato musical dos textos litúrgicos. Os elementos de sintaxe musical estão fundamentados nas soluções de expressividade associadas ao Barroco, incluindo o uso constante de figuras retórico-musicais, e são analisados à luz dos preceitos expostos no seu tratado musical A Arte Explicada do Contraponto. Essa série de obras pode ser considerado um microcosmo estilístico do compositor ao transitar com liberdade pelos diferentes estilos musicais vigentes em sua época, desde as rigorosas escolas de escrita contrapontística dos séculos XVI e XVIII, à importante música napolitana adaptada aos horizontes ibero-brasileiros.

Palavras-chave

Período Colonial – música sacra – estilo barroco – escola napolitana – música luso-brasileira.

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Música sacra no Rio de Janeiro, da monarquia à república

Thiago Santos 

Resumo

Este artigo oferece um balanço histórico da música sacra no Rio de Janeiro, desde o período monárquico até a primeira república, discutindo a obra sacra de compositores brasileiros desde o século XIX e primeiras décadas do século XX nos diversos contextos instaurados por conjunturas institucionais, políticas, religiosas e correntes estético-estilísticas. Busca refletir sobre o impacto do Motu Proprio na produção musical sacra brasileira do período e conclui que a música sacra era composta como obra de concerto para pura demonstração de habilidade composicional ou como música decorrente do pensamento religioso influenciado pelos ares reformistas que circulavam no cenário musical internacional.

Palavras-chave

Música sacra – Romantismo musical brasileiro – século XIX – século XX

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A Música religiosa e para as festividades das igrejas em Belém do Pará no final do século XIX

Mário Alexandre Dantas Barbosa

Resumo

Este artigo apresenta um panorama da música sacra em Belém do Pará no momento final do século XIX e da produção sacra do compositor paraense Otávio Meneleu Campos (1872-1927), que atuou em sua cidade natal no primeiro quartel do século XX. A primeira parte, fruto de um minucioso levantamento junto ao periódico A Província do Pará, revela detalhes sobre a atuação dos principais músicos dedicados à provisão de música para o serviço litúrgico e para as festas populares patrocinadas pela Igreja. Tal levantamento tem como recorte temporal o segundo semestre de 1899, vésperas do retorno de Meneleu Campos, que passara quase dez anos no exterior para fins de estudo. A segunda parte, conseguida a partir do cruzamento entre as informações colhidas junto a manuscritos musicais e demais fontes (periódicos e bibliografia específica sobre o compositor) aborda o contexto de composição das obras sacras compostas por Meneleu Campos e apresenta um balanço desta parcela diante da produção global do compositor.

Palavras-chave

Música sacra – Belém do Pará – Meneleu Campos – século XIX – século XX.

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MEMÓRIA

Recordando Eurico Nogueira França (1913-1992)

Vasco Mariz

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ENTREVISTA

Jorge Antunes, 70 anos de música e política

Maria Alice Volpe

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ARQUIVO DE MÚSICA BRASILEIRA

Madrigal para violino de Leopoldo Miguez

Roberto Macedo

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Madrigal para violino (edição de André Cardoso)

Leopoldo Miguez

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