RBM 26/1 (Sumário)

Sentido, estilo e idiomatismo




     
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Este volume propõe o eixo temático “Sentido, estilo e idiomatismo” e discute a construção de sentido com ênfase nos diversos tratamentos estilísticos plasmados por especificidades idiomáticas dos instrumentos musicais utilizados ou evocados, bem como pela apropriação de idiomatismos estilísticos de diversas tradições musicais. Os artigos que compõem este volume oferecem um horizonte histórico e cultural diversificado, abrangendo um longo arco cronológico, desde o século XVIII até a atualidade, em conjunturas musicais das Américas, Europa e Ásia.

Os três artigos iniciais abordam o repertório europeu, discutindo compositores canônicos dos séculos XVIII, XIX e XX, incluindo um compositor que deixou sua marca no pianismo virtuosístico, mas que atualmente figura minoritariamente no repertório das salas de concerto. Os três artigos seguintes dedicam-se à música brasileira: um buscando especificidades nacionalistas; outro revelando as relações culturais entre Brasil e Japão; e ainda outro propondo um quadro teórico-analítico para a compreensão do estilo musical contemporâneo dissociado do nacionalismo. O último artigo, não menos importante, oferece um olhar analítico para uma obra musical de renomada compositora norte-americana contemporânea, lançando uma perspectiva teórica para a compreensão de seu estilo musical individual, que revela a confluência de diversos estilos vinculados a tradições populares e eruditas

O artigo de abertura, de Guillermo Scarabino (Universidade Católica Argentina) propõe uma análise hermenêutico-musical de três obras de períodos histórico-estilísticos distintos que tratam do mesmo tema: a morte; e se baseiam na mesma relação intervalar associada à frase inicial de um coral luterano, conferindo, no entanto, sentidos distintos para a questão existencial. Os artigos seguintes tratam do estilo idiomático instrumental – compreendido como figurações musicais, sonoridades e convenções de performance associadas às características específicas de determinados instrumentos ou conjuntos musicais – numa junção de técnicas composicionais e apropriação de estilos musicais. Jacob Herzog e Giulio Draghi (ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro) abordam o pianismo do século XIX associando- o, respectivamente, ao exotismo e ao virtuosismo; e Priscila Araújo Farias (Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense) aborda uma expressão regionalista do nacionalismo. Yuka de Almeida Prado (Universidade de

São Paulo, Ribeirão Preto) discute a congruência estética entre o Ocidente e o Oriente, a poesia concreta e os ideogramas da poesia japonesa que conduziu à formulação da teoria tempo-espaço e o tratamento dado ao tema da natureza. Kheng K. Koay (Universidade Nacional Sun Yat-sen, Taiwan) aborda analiticamente a fragmentação implícita na fusão de diversos estilos musicais e técnicas composicionais, conferindo um sentido de passado e presente, interrupção e avanço, momento a momento, fim, ambiguidade, bem como um sentido não tradicional para a tonalidade e as formas convencionais; e uma combinação ímpar de texturas e camadas.

Na seção Memória, Myrian Dauelsberg (Universidade Federal do Rio de Janeiro) oferece saboroso relato sobre sua vivência em Paris com grandes orquestras e solistas soviéticos e a oportunidade de resgatar precioso acervo de gravações de época por meio de uma série de CDs remasterizados. A entrevista deste número, conduzida por Rubens Russomanno Ricciardi (Universidade de São Paulo-Ribeirão Preto) e Clotilde Perez (Universidade de São Paulo), está dedicada ao compositor Gilberto Mendes, que completa 91 anos, refletindo sobre a trajetória musical e seu tempo e oferecendo um balanço da proposta, repercussão e recontextualização do Manifesto Música Nova, que completa 50 anos. Discute ainda a relação do Movimento Música Nova com o grupo Noigandres da poesia concreta, os festivais de Darmstadt, Donaueschingen e o próprio Festival Música Nova, e a simbologia dos eventos de 1922.

Na seção Arquivo de Música Brasileira, André Cardoso (Universidade Federal do Rio de Janeiro e Academia Brasileira de Música) apresenta um texto introdutório e a edição musicológica de En Rêve (versão para orquestra), de Henrique Oswald, localizado no acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno.

EDITORIAL

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ARTIGOS


Bach, Berg, Britten y algunos significados de Es ist genug

Guillermo Scarabino 

Resumen

La Cantata BWV 60 “O Ewigkeit, du Donnerwort” (1723) de Johann Sebastian Bach, el Concierto para violín y orquesta (1935) de Alban Berg y el War Requiem (1962) de Benjamin Britten tienen factores en común que los vinculan entre sí: los tres tienen como objeto la muerte y en los tres adquiere prominencia el tetracordio aumentado asociado a la frase inicial del coral Es ist genug. El propósito de este trabajo es contemplar la posible significación del coral en cada una de esas obras, y qué otros factores las vinculan entre sí..

Palabras clave

Hermeneutica musical – análisis musical – música y literatura – siglo XVIII – siglo XX.

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Brahms and the Style Hongrois

Jacob Herzog 

Resumo

A riqueza semântico-ontológica dos textos litúrgicos sustenta a música sacra cujo discurso se estrutura na disponibilidade das técnicas e poéticas que evoluem historicamente. Os desafios da tradição dos estudos musicológicos e da pesquisa sobre as fontes primárias geraram no Brasil o acesso a um rico patrimônio musical que data do século XVIII. É um equívoco pressupor que as atividades musicais no Brasil Colonial se localizassem fora do circuito europeu da especialidade; ao contrário, integravam-se inclusive na geração de métodos e tratados teóricos a serviço das atividades criativas da profissão. Equívoco é também circunscrever geograficamente as atividades musicais apenas às regiões limítrofes do poder administrativo da colônia, tanto quanto a excelência das composições e a variedade e quantificação do repertório; como procedeu, mutatis mutandis, a musicologia europeia relativamente à própria produção musical ibérica do mesmo período.

Palavras-chave

Exotismo – século XIX – Romantismo – música para piano – Johannes Brahms.

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Carl Tausig’s pianism and compositions

Giulio Draghi

Resumo

Este artigo propõe uma análise de algumas inovações e características recorrentes tanto no estilo pianístico (pianismo) de Tausig quanto em suas composições. Entre tais padrões recorrentes estão o glissando cromático (em sua primeira aparição na história do piano, razão de alguns constrangimentos até mesmo a Liszt); a predileção por notas duplas, que foi estendida tanto substituindo passagens em notas simples em composições de Chopin como em suas transcrições; e o vasto uso de oitavas intercaladas com notas simples, o que proporciona ao intérprete mais brilho, precisão e clareza, assim como permite um grande ressonância de sons harmônicos. Além disso, destaca-se o uso da escala de tons inteiros em meados do século XIX, quando tinha apenas 17 anos de idade.s.

Palavras-chave

Piano no século XIX – técnica pianística – transcrições para piano – compositor e pianista virtuoso.

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A escrita idiomática da rabeca ao violino: Guerra-Peixe e a sonoridade nordestina

Priscila Araújo Farias 

Resumo

O Concertino para Violino e Orquestra de Câmara (1970-1972), de César Guerra-Peixe, foi composto sob a inspiração do Movimento Armorial e fundamentou-se nas pesquisas de campo empreendidas pelo compositor no Nordeste brasileiro. Um dos aspectos mais importantes dessa composição reside na escrita idiomática, em que o violino solista assume o papel de uma rabeca nordestina e a orquestra, o papel de um conjunto regional. A análise idiomática instrumental busca compreender como o compositor explorou as sonoridades folclóricas nos instrumentos eruditos e, especificamente, como o compositor transportou a técnica da rabeca para o violino. A análise comparativa entre as técnicas de instrumentos típicos e folclóricos nordestinos e de instrumentos de orquestra erudita identificou os tipos de sonoridades características da música nordestina e os recursos técnico-instrumentais para a realização dessas sonoridades na orquestra erudita. Concluiu que o compositor não se ateve às limitações técnicas dos instrumentos folclóricos para reconstruir o universo sonoro nordestino, mas o cunhou com uma gama ampla de recursos técnicos dos instrumentos eruditos. A identificação e classificação de sonoridades e recursos técnico-instrumentais oferece parâmetros para a execução dessa obra, e similares do repertório nacionalista brasileiro.

Palavras-chave

Música brasileira – século XX – nacionalismo – escrita idiomática – estilo musical.

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O mar de Suzu na teoria tempo-espaço de Luiz Carlos Lessa Vinholes: poesia concreta, música aleatória e diálogos culturais entre Brasil e Japão

Yuka de Almeida Prado

Resumo

A natureza tem conotações metafóricas exprimindo todos os sentimentos humanos nas composições poéticas da cultura japonesa, porquanto há uma veneração, respeito e religiosidade aliada a uma inter-relação estreita do homem e da natureza. As artes tradicionais japonesas têm, portanto, fortes vínculos na natureza, inclusive a escrita baseada em ideogramas. E é nesse contexto que o movimento da poesia concreta emerge inspirado também a partir dos ideogramas da poesia japonesa conduzindo à teoria tempo-espaço de Luiz Carlos Lessa Vinholes. Suzu é uma cidade na província de Ishikawa no Japão cujo hino de uma escola primária Ôtani Shôgakkô foi composto por Vinholes sobre letra do poeta Shuzo Iwamoto, em 1962. Segundo o próprio compositor, foi musicada com melodia que mescla a plasticidade de expressão japonesa com pequena referência ao ritmo sincopado característico das oralidades culturais brasileiras. Esse pequeno hino, sem bordas e sem pentatonismos, parece retratar o “vazio” do jardim zen, ultrapassando fronteiras continentais.

Palavras-chave

Música brasileira – século XX – Brasil e Japão – poesia concreta – música aleatória.

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Poesilúdio nº 4 de Almeida Prado: dimensões de tempo e altura como ferramenta de subversão e ampliação do conceito de forma

Edson Hansen Sant’Ana

Resumo

Este artigo visa demonstrar as possibilidades formais assimétricas descendentes das interações entre o tempo e a altura que Almeida Prado realiza no Poesilúdio nº 4. Demonstra como os elementos são expandidos e contraídos, a partir de uma lógica que não exclui o diálogo com a teoria formal tonal tradicional, mas que reutiliza desse senso comum para estruturar seu gesto musical na sua composição atonal. A análise dessa peça é entremeada teoricamente com conceitos de Schoenberg (1967), Dunsby e Whittall (1988), numa revisão técnica e crítica pela teoria e análise, considerando ainda o modelo básico conceitual de tempo de Dahmen (2007). O posicionamento de Mann (1995) e a crítica pós-moderna de temporalidade de Jameson (2010) oferecem um embasamento teórico para interpretar os resultados analíticos dos materiais musicais, cuja função “tempo” resulta na ampliação e subversão no sentido da microforma.

Palavras-chave

Música brasileira – século XX – análise musical – música atonal – forma musical.

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The structural fragmentation in Zwilich’s Millennium Fantasy

Kheng K. Koay

Resumo

Este estudo aborda a Fantasia Milênio (2000), de Zwilich, obra que exemplifica a natureza da criatividade pessoal da compositora e revela diversas influências musicais. Na sua música Zwilich emprega uma variedade de técnicas para promover diferentes impressões lúdicas e surpresas. O jogo contínuo de truques sobre ouvintes ao longo dos dois movimentos é uma das características da peça musical. Na maioria dos casos, o sentido de fragmentação criado na composição também resulta da construção de musical lúdica de Zwilich. Além disso, o jazz, idiomas populares e tradicionais são tratados com destreza na composição, que não se confina em um estilo musical. Essa peça pode servir como um modelo do equilíbrio com que Zwilich maneja estilos tradicionais e populares.

Palavras-chave

Século XX – música americana – compositoras – música contemporânea – análise musical – estilo musical.

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MEMÓRIA

Arquivo Russo: o resgate de um acervo histórico

Myrian Dauelsberg

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ENTREVISTA

O compositor Gilberto Mendes e os 50 anos do Manifesto Música Nova

Rubens Russomanno Ricciardi e Clotilde Perez

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ARQUIVO DE MÚSICA BRASILEIRA

Notas introdutórias a En Rêve de Henrique Oswald

André Cardoso

Resumo

Notas introdutórias sobre a obra En Rêve de Henrique Oswald (1852-1931) e a edição feita a partir de cópia manuscrita pertencente ao acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Palavras-chave

Henrique Oswald – música brasileira – romantismo musical – edição musical.

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En Rêve (versão para orquestra; edição de André Cardoso)

Henrique Oswald

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