RBM 28/1 (Sumário)

Cosmoramas




     
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A Revista Brasileira de Música inicia sua nona década de existência celebrando a música brasileira e suas intersecções com o pensamento musicológico internacional e sua irmandade com a América Latina. A RBM consolida sua política editorial de internacionalização e democratização do acesso ao conhecimento, e busca promover o aprofundamento das abordagens musicológicas e seu redimensionamento por posturas interdisciplinares.

O eixo temático “Cosmoramas”, deste volume, evoca as diversas visões de mundo instauradas pela música em sua diversidade cultural, estilística e ideológica, ao lado de uma proposta de ciência indisciplinada da música. O título sugestivo “cosmoramas” apropria-se da experiência daquelas “instalações” da cultura urbana dos séculos XIX-XX, que simulavam paisagens por onde as pessoas passavam sob efeitos especiais de aparelhos óticos e grandes painéis de pintura, cuja artificiosidade pode ser equiparada à “visão do mundo” instaurada pela disciplina musicológica.

O resgate de uma musicologia tout cour, proposto por Denis Laborde (Centre National de la Recherche Scientifique), no artigo de abertura, a partir de uma abordagem heurística compartilhada que vise a amalgamar a heterogeneidade de conhecimentos, é seguida pela proposta de superação do formalismo pelo artigo de Marcos Nogueira (UFRJ) por meio do conceito de “sentido incorporado” – embodied meaning. O terceiro artigo, de Martha Tupinambá Ulhôa (UniRio) e Luiz Costa-Lima Neto (UniRio), discute a construção de narrativas fundadoras de identidade nacional balizada por uma memória seletiva, apresentando um estudo sobre o lundu que tomou como fonte de pesquisa os periódicos e as partituras de época. O artigo de Marcelo Verzoni (UFRJ) oferece um estudo documental analítico da obra de Ernesto Nazareth que demonstra que as denominações de gênero musical da música brasileira popular do final do século XIX e início do século XX não estiveram necessariamente atreladas a concepções estilísticas, mas sobretudo à condicionantes do mercado musical. O artigo de Manoel Aranha Corrêa do Lago (Academia Brasileira de Música) propõe uma nova visão sobre alguns procedimentos composicionais de Villa-Lobos, que supera o juízo de valor pejorativo que tem permeado a apreciação estética da obra do compositor brasileiro ao estabelecer novos parâmetros para o entendimento de seu processo composicional. Seguindo a senda dos estudos de estilo sobre o modernismo nacionalista, o artigo de Lutero Rodrigues (Unesp) oferece uma discussão sobre as características marcantes da linguagem musical de Camargo Guarnieri, reequacionando as diversas fases de sua trajetória criativa. O artigo de Mauro Camilo de Chantal Santos (Unicamp) e Adriana Giarola Kayama (Unicamp) ocupa-se dos diversos momentos históricos que pontuaram a composição de uma ópera do compositor paraense Arthur Iberê de Lemos (1901-1967).

Na seção Memória, Eliana Monteiro da Silva (USP) oferece preciosa pesquisa sobre a pianista argentino-brasileira Beatriz Balzi, que atuou sistematicamente para a divulgação da música latino-americana no Brasil, com especial ênfase na música contemporânea, estabelecendo pontes entre a América de língua hispânica e a de portuguesa. A entrevista deste número, conduzida por Ana Paula da Matta Machado Avvad (UFRJ) e Nathália Martins (UFRJ), tem o privilégio de contar com a valiosa colaboração do compositor e multi-instrumentista renomado internacionalmente Egberto Gismonti, que generosamente compartilhou sua musicalidade e seu espírito crítico, inquieto, questionador e excepcionalmente criativo.

Na seção Arquivo de Música Brasileira, Mário Alexandre Dantas Barbosa (UFRJ) e Maria Alice Volpe (UFRJ) apresentam um texto introdutório e a edição musicológica de Romanza senza parole “T’Amo” (versão para quarteto duplo de cordas), do compositor paraense Otávio Meneleu Campos (1872-1927), cujos manuscritos estão localizados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.


EDITORIAL

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ARTIGOS


Por uma ciência indisciplinada da música

Denis Laborde

Resumo

Nesta contribuição, a palavra musicologia significa “a ciência da música” em sua acepção mais ampla, como uma abordagem do conhecimento trazido por disciplinas díspares e que têm em comum a música como objeto de estudo. No entanto, todos os indicadores (cursos universitários, reuniões de especialistas, literatura especializada, maratonas enciclopédicas...) testemunham que aqueles que dedicam suas vidas ao estudo da música não desistem da ideia de construir uma ciência englobante. Nós não desistimos da busca do ideal do conhecimento totalizante, de uma musicologia federativa, rica pela sua variedade infinita de áreas e de especialidades que a integram. Não sonhamos, todavia, com essa musicologia geral que deixou sua marca na França? Crescemos imunes a essa evidência e nossas instituições a administram. É preciso um amálgama que consolide sob uma mesma rubrica os empreendimentos de conhecimentos heterogêneos que, longe de torná-los autônomos no panorama institucional das ciências da música, busque agregá-los sob a reivindicação de que sejam abrigados sob uma denominação comum. Consequentemente, esse esforço de generalização – que visa reunir, sob os auspícios da ciência musicológica, segundo diferentes graus de relevância, os estudos ou as abordagens do conhecimento dos mais diversos – se aparenta muito mais a uma justaposição heteróclita e constantemente mutante de disciplinas instituídas (ou em vias de o serem) do que à implementação de uma abordagem heurística compartilhada. Esta contribuição propõe uma inversão de perspectiva a partir de uma análise de caso.

Palabras clave

Epistemologia – enciclopédia – ontologia – música – etnomusicologia – musicologia

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Cosmoramas, lundus e caxuxas no Rio de Janeiro (1821-1850)

Martha Tupinambá de Ulhôa e Luiz Costa-Lima Neto

Resumo

A construção de narrativas fundadoras de identidades nacionais faz uso de uma memória seletiva, enfatizando aspectos que tendem a ser revistos após retorno às fontes primárias. Este é o caso do lundu dança, eleito como um dos pilares fundamentais da história da música popular no Brasil. O Lundu (lundum, ondu, lundu), ao lado da caxuxa (ou cachucha), foi uma das várias danças exóticas apresentadas nas performances teatrais desde fins do século XVIII, em Portugal, e na primeira metade do século XIX nos palcos da América do Sul (Rio de Janeiro, Buenos Aires, Lima). Viajantes estrangeiros que assistiram às performances de lundu (Debret, Rugendas, von Martius) compararam-no com as danças que eles conheciam na Europa (fandango espanhol, allemanda alemã). O estudo detalhado de informações extraídas dos periódicos e da análise comparativa de partituras do período (1821-1850) permite nova escuta do lundu, como parte da trilha sonora da época.

Palavras-chave

Música brasileira – música popular – lundu – caxuxa – historiografia musical.

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Ernesto Nazareth, uma questão de gênero: entre manuscritos, edições e discos de época

Marcelo Verzoni

Resumo

Este estudo aborda o conjunto da obra de Ernesto Nazareth (1863-1934) com o intuito de discutir a questão de gênero musical por meio da análise dos documentos de época que indicam sua denominação e da comparação com as denominações atribuídas posteriormente por diversas práticas musicais. Especial ênfase é dada aos termos “tango” e “choro”, que são confrontados nos manuscritos musicais, partituras editadas e discos de época. Conclui-se que a atribuição de gênero musical não esteve necessariamente atrelada a concepções estilísticas, mas sobretudo à condicionantes de caráter comercial-mercadológico, vinculado aos modismos em que se enredavam os editores e os produtores de espetáculos.

Palavras-chave

Música brasileira – música popular – mercado musical – gênero musical – século XIX – século XX.

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Processos composicionais de Villa-Lobos: transcrições e “works in progress” nos anos 1930 e 1940

Manoel Aranha Corrêa do Lago

Resumo

Villa-Lobos escreveu um conjunto de obras que apresentam, como peculiaridade, o fato de sua construção estar baseada na reutilização e transcrição de composições mais antigas. O lugar ocupado não somente por “works in progress” dos anos 1930 e 1940, como também por transcrições (de suas próprias obras como também de terceiros) e/ou re-composições de obras dos anos 1920 e, surpreendentemente, dos anos 1910, parece denotar um olhar retrospectivo e uma reavaliação de sua obra passada. Este estudo aborda esses procedimentos composicionais no intuito de compreender os processos composicionais de Villa-Lobos no limiar de uma fase de reorientação composicional.

Palavras-chave

Música brasileira – nacionalismo musical – Heitor Villa-Lobos – século XX – processos composicionais.

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As características da linguagem musical de Camargo Guarnieri

Lutero Rodrigues

Resumo

Este artigo ocupa-se de algumas características estilísticas marcantes da linguagem musical de Camargo Guarnieri, procurando sua origem, seu comportamento no âmbito geral da obra musical e sua evolução ao longo da trajetória criativa do compositor. Ao final, há uma sugestão de divisão da obra musical de Guarnieri em diferentes fases, baseando-se em fatos históricos e mudanças estéticas verificadas em sua obra.

Palavras-chave

Música brasileira – nacionalismo musical – Camargo Guarnieri – Mário de Andrade – século XX.

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A ceia dos cardeais, ópera de Arthur Iberê de Lemos: sua criação e estreia

Mauro Camilo de Chantal Santos e Adriana Giarola Kayama

Resumo

A única ópera completa do compositor paraense Arthur Iberê de Lemos (1901–1967), A ceia dos cardeais, foi composta ao longo de décadas, desde sua criação ao piano até sua orquestração final, tendo sua estreia ocorrida em de 1963, no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. O percurso realizado pelo compositor desde os primeiros esboços da obra, aspectos históricos envolvendo sua criação e as tentativas do compositor, apoiados por nomes como Heitor Villa-Lobos e Lorenzo Fernandez, de representação da ópera são tratados no presente artigo. Através deste trabalho, pretende-se divulgar o nome do compositor brasileiro Arthur Iberê de Lemos, bem como a ópera A ceia dos cardeais.

Palavras-chave

Música brasileira – nacionalismo musical – ópera – Arthur Iberê de Lemos – século XX.

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MEMÓRIA

Beatriz Balzi (1936-2001): América Latina e contemporaneidade como opção

Eliana Monteiro da Silva

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ENTREVISTA

Egberto Gismonti, música volátil

Ana Paula da Matta Machado Avvad e Nathália Martins

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ARQUIVO DE MÚSICA BRASILEIRA

Introdução à Romanza senza parole “T’Amo” (versão para quarteto duplo de cordas), de Otávio Meneleu Campos

Mário Alexandre Dantas Barbosa e Maria Alice Volpe

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Romanza senza parole “T’Amo” para quarteto duplo de cordas (edição de Mário Alexandre Dantas Barbosa e Maria Alice Volpe)

Otávio Meneleu Campos

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