RBM 28/2 (Sumário)

Sistema Mundo




     
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A Revista Brasileira de Música enceta sua nona década de existência celebrando a música brasileira e suas intersecções com a cultural musical de outros países e o pensamento musicológico internacional. A RBM consolida sua política editorial de internacionalização e democratização do acesso ao conhecimento, e busca promover o aprofundamento das abordagens musicológicas e seu redimensionamento por posturas interdisciplinares.

O eixo temático “Sistema Mundo”, deste volume, remete às relações socioculturais da música em contextos geoculturais diversos. O termo “sistema mundo” é emprestado do sociólogo Immanuel Wallerstein no intuito de sugerir que este conjunto de textos seja lido sob a perspectiva de que seus objetos de estudo integram um sistema maior, que resultou em estruturas institucionalizadas do saber historicamente situadas e instauradas pelo capitalismo, resultando em visões de mundo e relações entre “centro” e “periferia”.

A Revista Brasileira de Música agradece reiteradamente à equipe editorial pela dedicação a este projeto, dando as boas vindas à nova diretora da Escola de Música da UFRJ, Maria José Chevitarese, reiterando profundos agradecimentos ao ex-coordenador do Programa de Pós-graduação em Música, Marcos Nogueira, pelo apoio contínuo a esta publicação, extensivos ao atual coordenador do PPGM, Pauxy Gentil Nunes, aos colegas da Comissão Deliberativa e da Comissão Executiva da RBM. Presta mais uma vez sua deferência aos membros do Conselho Editorial e aos pareceristas ad hoc pela competência e prontidão às nossas demandas. Gratidão reiterada à Márcia Carnaval pelo belíssimo projeto gráfico e a Francisco Conte pelo site.

Que esta publicação possa incitar inquietações e desafios ao leitor.

EDITORIAL

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ARTIGOS


Musicologia: centro e periferia no sistema mundo

Régis Duprat e Maria Alice Volpe

Resumo

Discute a diversidade na musicologia etnohistórica latino-americana e as ações de cooperação entre a comunidade de pesquisadores, visando especialmente as políticas científicas e as políticas institucionais, à luz da macrossociologia histórica e da socioantropologia.

Palabras clave

Musicologia – política científica – política institucional – sociologia do conhecimento – etnohistória.

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Coleções de manuscritos de ópera italiana nos diversos países e o acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno da EM-UFRJ

Philip Gossett

Resumo

Ensaio sobre as diversas coleções de manuscritos musicais da ópera italiana do século XIX nos inúmeros arquivos fora da Itália, entre os quais Espanha, Portugal, Dinamarca, Rússia, Estados Unidos e Brasil, com ênfase na coleção de obras raras da Biblioteca “Alberto Nepomuceno” da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A importância dessas coleções reside no fato de restarem como fontes ímpares do repertório, decorrente da perda de documentação na Itália, sobretudo depois da destruição maciça dos Arquivos Ricordi e Sonzogno em Milão durante a Segunda Guerra Mundial Este ensaio oferece possibilidades de pesquisa no intuito de nortear estudos futuros.

Palavras-chave

Arquivo musical – biblioteca musical – disseminação – ópera italiana – arquivos brasileiros – Biblioteca Alberto Nepomuceno.

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“Ad dissonantiam per consonantiam”: the scope and limits of Darius Milhaud´s system of “Polytonalité harmonique”: the immanent and poietic levels (Part 1)

Manoel Aranha Corrêa do Lago

Resumo

A partir da Sagração da Primavera de Igor Stravinsky, tornou-se frequente na música do início do século XX a utilização de poliharmonias complexas que, apesar de seu efeito dissonante, apresentam a peculiaridade de serem redutíveis à superposição de acordes consonantes tradicionais, como tríades e “acordes de 7ª de dominante”. Em artigo datado de 1923, Darius Milhaud tentou fornecer uma rationale e uma taxonomia para esses “novos acordes” por um sistema de “politonalidade harmônica”. Será argumentado, ao longo deste estudo, que a abordagem de Milhaud poderia ser significativamente enriquecida, por um lado, se entendida como um método com capacidade de gerar “séries não ordenadas” (unordered pitch-class sets) com características muito específicas e que são encontradas com frequência em obras da “fase russa” de Stravinsky, assim como nas de compositores tão diversos quanto Ravel, Ives, Villa-Lobos, Britten ou Messiaen; e por outro, se colocada na perspectiva da teoria da “tripartição” de Molino & Nattiez. A primeira parte deste artigo discute os níveis “imanente” e “poiético”.

Palavras-chave

Politonalidade harmônica – poliharmonia – teoria dos conjuntos – tripartição – modos carnáticos – Darius Milhaud – Igor Stravinsky.

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Elsie Houston e Chants Populaies du Brésil: pesquisas sobre o folclore musical brasileiro e formação de repertório artístico, décadas de 1920 a 1940

Isabel Bertevelli

Resumo

Este artigo trata da atuação da cantora Elsie Houston na promoção da música brasileira no exterior, por meio de pesquisa e coleta de temas do folclore musical, palestras e textos publicados em periódicos. Elsie Houston registrou parte desses cantos em livro e gravações, após ter tido contato direto com a música folclórica em suas viagens pelo norte e nordeste brasileiro, junto com seu esposo Benjamin Péret. A cantora teve relação profissional relevante com Mário de Andrade e Heitor Villa-Lobos, que a introduziu a quatro personalidades importantes da época, Guilherme Pereira de Melo (Bahia), Manoel Lemos (Paraíba do Norte), Maestro Franco (Manaus) e Manoel Augusto dos Santos (Pernambuco). O livro Chants populaires du Brésil (1930) foi escrito no Brasil pela cantora por solicitação do Comitê Internacional da Liga das Nações, da Sorbonne, e pertence à primeira série de estudos sobre o folclore brasileiro de sua lavra. O livro contém uma coleção de quarenta e duas melodias, com introdução do musicólogo francês Philipe Stern, no qual o repertório é discutido por gêneros.

Palavras-chave

Música brasileira – nacionalismo musical – folclore musical – historiografia musical brasileira – Elsie Houston.

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Modelagem sistêmica do Ponteio Nº 2 de Camargo Guarnieri segundo a teoria dos contornos

Liduino Pitombeira

Resumo

Neste trabalho examinamos uma metodologia de composição por reconfiguração paramétrica intertextual denominada modelagem sistêmica. Para esse fim, utilizamos a teoria dos contornos com a finalidade de determinar um sistema composicional hipotético para o Ponteio Nº 2 de Camargo Guarnieri. Esse sistema será determinado através da análise de contorno melódico e de um procedimento de generalização paramétrica, que possibilitará a proposição de um modelo para a obra, expresso em parte por uma função programada em MatLab, e será a base para o planejamento do segundo movimento de uma obra para trio de madeiras.

Palavras-chave

Modelagem sistêmica – sistemas composicionais – generalização paramétrica – teoria dos contornos.

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Gradações rítmicas no limiar da percepção humana: Atmosphères, de György Ligeti

Claudio Vitale

Resumo

Neste artigo estudamos um trecho da obra Atmosphères (letra de ensaio C), do compositor György Ligeti. Utilizamos o conceito de gradação como base para nossas interpretações estabelecendo relações com a noção de continuum. Consideramos fundamental este par de conceitos na produção do compositor após sua experiência no Estúdio de Música Eletrônica de Colônia. De fato, podemos afirmar que a gradação enquanto técnica sustenta frequentemente a sensação de continuum na percepção da obra. Consideramos o estudo de Atmosphères de grande relevância pois é nesta obra que se consolida um tipo de escrita com ampla ressonância nas obras posteriores do compositor. As análises rítmicas tentam mostrar que existe um pensamento similar ao utilizado no campo das alturas. Neste sentido, ideias como gradação ou “cluster com buracos” (continuidade com descontinuidades) podem ser aplicadas tanto no âmbito das alturas quanto do ritmo.

Palavras-chave

Atmosphères – György Ligeti – gradação – processos rítmicos – continuum – análise musical.

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As esculturas sonoras de Harry Bertoia e dos irmãos Bernard e François Baschet

Marcus Ferrer

Resumo

No presente texto, abordamos parte da produção de três artistas: o escultor Harry Bertoia, que produziu uma ampla série de esculturas sonoras nas décadas de 60 e 70; e os irmãos Baschet que criaram uma série de instrumentos musicais a partir da década de 1950, sendo expostos em museus e considerados também como esculturas sonoras. Analisamos essa produção a partir de textos onde estão expostas as visões pessoais dos próprios artistas. Ao final, apontaremos pontos de convergência e de divergência na criação dessas esculturas sonoras.

Palavras-chave

Arte sonora – escultura sonora – Harry Bertoia – Irmãos Baschet.

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Cordel Estrada da Lua: uma etnografia

Ricardo Simões

Resumo

Este artigo busca relatar algumas atividades e vivências do grupo “Cordel da Estrada da Lua”, que existe na cidade de Cunha, interior de São Paulo. Este grupo se desenvolve com experiências musicais e poéticas de grande espontaneidade e misticismo. O autor deste artigo funde os papéis do trabalho etnográfico, na qualidade de participante, com o processo criativo.

Palavras-chave

Música e ritual – etnografia participativa – folclore – construção de instrumentos musicais – cerâmica.

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Uma teoria cognitiva do efeito estético musical

Mar­cos Nogueira

Re­sumo

Um in­t­elec­tu­al­ismo mod­erno con­soli­dou a ideia de es­tru­tura na ex­periência da música, elab­o­rando di­ver­sas es­tratégias de con­strução e de re­con­hec­i­mento de uma forma mu­si­cal. Este for­mal­ismo sed­i­men­tou a ideia de que o en­tendi­mento mu­si­cal deve ser obtido na mera apreensão de uma dis­posição lógica de even­tos mu­si­cais con­cate­na­dos dis­cur­si­va­mente. As­sim os mod­e­los for­mais re­sul­tantes de uma análise sintática mu­si­cal pro­por­cionaram a ilusão da coerência es­tilística en­tre as obras desse modo in­ves­ti­gadas e cote­jadas, as­su­mindo pa­pel cen­tral de ob­jeto do en­tendi­mento mu­si­cal. To­davia, se con­sid­er­ar­mos como no re­al­ismo in­cor­po­rado que os sen­ti­dos da música, as­sim como quais­quer out­ros sen­ti­dos con­stituídos em quais­quer cam­pos de con­hec­i­mento nascem de nosso en­ga­ja­mento com o mundo e têm origem nas e a par­tir de nos­sas ações sensório-mo­toras, o en­tendi­mento mu­si­cal é, antes de tudo, en­tendi­mento do processo de ab­stração daque­les mod­e­los for­mais, e não dos mod­e­los pro­pri­a­mente. Es­ta­mos frente à tradi­cional con­trovérsia en­tre uma semântica for­mal, que em música apon­taria di­re­ta­mente para o campo da ref­er­en­ciação (ex­pressão, ideias, sen­ti­men­tos, rep­re­sentação, sim­bolismo), recor­rente­mente abor­dado pela teo­ria mu­si­cal da Mod­ernidade, e uma semântica cog­ni­tiva, com­pro­metida com o como con­struímos o sen­tido mu­si­cal, ou seja, com o es­tudo dos proces­sos por meio dos quais or­ga­ni­zamos imag­i­na­ti­va­mente os even­tos mu­si­cais no ato da es­cuta. Este ar­tigo pre­tende dis­cu­tir os proces­sos que con­stituem uma semântica cog­ni­tiva do en­tendi­mento mu­si­cal.

Pal­abras clave

Cognição mu­si­cal – semântica cog­ni­tiva – forma mu­si­cal – es­cuta – efeito estético.

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